O
Início
Essa história se inicia com lágrimas. Eu
estava na creche, minha mãe há pouco me deixara e tudo o que eu fazia era
chorar. As educadoras tentavam me acalmar, mas sem nenhum sucesso. Eu fiquei
chorando em frente à porta o dia todo. No dia seguinte foi a mesma coisa, e no
outro, e foi se sucedendo até que ela me tirou de lá. Essa é minha lembrança
mais antiga e ela desencadeia muitas outras.
Minha
família
Eu morava com minha mãe, meu pai e meu irmão
mais velho. Minha mãe saía para trabalhar cedo pela manhã e voltava muito
tarde, por isso nós não tínhamos muito contato. Meu pai era o típico bêbado,
ele ficava fora o dia todo, mas às vezes voltava pouco antes de minha mãe
chegar e mentia não ter saído. Meu irmão mais velho se chamava David e por
alguma razão ele me odiava.
Medo de
estar só
As tarde eram entediantes, na maioria dos
dias eu ficava com minha tia e seu filho, ela era uma mulher muito generosa,
estava sempre tentando me engordar.
Meu primo havia saído então acabei passando
um pouco do seu perfume caro, quando ele chegou e sentiu o cheiro deu-me uma
surra, mas o pior de tudo foi ter de tomar banho junto com ele depois (minha
tia nos fazia tomar banho junto para economizar, pare de pensar besteiras). Às
vezes quando minha tia saía ela deixava-me trancado dentro de um quarto da
casa, e essa é uma coisa que me marcou, eu ficava lá trancado chorando e
gritando por ajuda, pois era muito novo e tinha medo de ficar sozinho, além de
o quarto ser mal iluminado. Quando contava para minha mãe, ela parecia não se
importar, então parei de contar essas coisas a ela.
Outras
crianças
David havia entrado em férias e minha mãe
mandava-o tomar conta de mim para não ter de pagar minha tia. Ele e seu amigo
Gustavo iam andar de bicicleta e me deixavam em casa sozinho, ele me ameaçava
para que não contasse à minha tia e eu obedecia.
Eu tinha um vizinho da mesma idade que eu,
ele se chamava Fernando, eu ia à sua casa para brincar, mas quase sempre era
expulso, e quando ele brincava comigo roubava meus brinquedos.
Lição
pra toda vida
Quando meu pai não conseguia dinheiro ele
ficava em casa. Certo dia ele apareceu com um amigo (que todos chamavam de “Seu
minino”) na hora do almoço e disse para meu irmão: “Hoje vou te ensinar uma
lição que você levará para o resto da vida”. Ele foi trocar de roupa, enquanto
isso “Seu minino” ensinava a mim e a meu irmão como derrubar alguém maior que
você. “Primeiro você deixa o cara distraído, depois acerta um chute nas bolas
do malandro”, ele disse. “Aí você acerta um murro na cara dele e sai correndo”,
completou meu pai, que voltou usando uma roupa velha e surrada.
Caminhávamos fazia algum tempo, o sol estava
escaldante. Até que ele disse “Aqui está ótimo, David você vem comigo”.
Disse-me que era novo demais para entender aquilo, então ficamos “Seu minino” e
eu, sentados no meio-fio. Eles voltaram com uma bandeja cheia de comida muito
refinada, os três comeram, eu fiquei olhando, pois havia muitas cebolas,
detesto cebolas. Tudo porque ele não queria cozinhar.
Não se desanime, meu caro amigo, pois já irá
começar a ficar interessante.
Abrigo
para drogados
Felizmente meu pai parou de se embebedar, mas
infelizmente ele começou a se drogar. Não fazia muita diferença, até que ele
trouxe um amigo e seu filho para posarem uns dias, tempos depois eles já
estavam morando conosco. Depois veio outro amigo e outro, até que todos os sem
teto e drogados da região estavam morando na minha garagem. Havia ao todo cerca
de vinte pessoas, homens, mulheres e crianças, todos ficavam envoltos em
cobertores, eles fediam a urina e vômito. “Seu minino” também estava morando
lá, e, volta e meia na hora do almoço enfiava a mão no meu prato enquanto
sorria e dizia “Batatinha, batatinha, batatinha”.
Você
tem medo do escuro?
Somente minha mãe trabalhava, ela não
conseguia sustentar o vício de meu pai e dos outros drogados, e ainda por cima
alimentá-los. As contas iam se acumulando até que no meio da noite a luz fora
cortada. A geladeira estava vazia, eu estava com fome, frio e estava no escuro.
Eu chorei até dormir.
Bem
vindo ao inferno
Um ano se passou, e aquele seria meu primeiro
dia de aula. Eu fiquei assustado com a quantidade de crianças naquele saguão,
de todas eu só conhecia Fernando, mas
ele era de uma turma diferente. Depois que o sinal bateu e minha mãe foi embora
eu me senti como se tivesse levado um murro no estômago.
Entrei na sala e me sentei logo à entrada. Eu
tentei me enturmar, mas sempre era cortado, eu já era odiado e mal tinha me
apresentado. No intervalo todos estavam brincando, enquanto eu ficava
assistindo, pensei em pedir para brincar, mas não tinha coragem o suficiente.
Fui procurar por Fernando, mas ele já estava brincando com outras crianças,
voltei para meu lugar e esperei pelo sinal. Quando minha mãe perguntou eu disse
que adorei. Ela já tinha muitos problemas, então preferi não incomodá-la com os
meus.
Momento
de glória
Havia um garoto chamado Anderson, ele era o
mais forte da turma, todos o temiam. Certo dia ele começou a gritar comigo e
tentou me bater, eu reagi e tivemos uma briga cheia de arranhões e beliscos, eu
tive vantagem, pois seu cabelo era comprido. Quando voltei para sala todos me
cumprimentaram e me parabenizaram, mas quando Anderson entrou na sala todos
ficaram em silêncio absoluto.
No dia seguinte ele tentou provar que era
mais forte que eu, mas dessa vez eu definitivamente venci a briga. Enquanto
aguardávamos na diretoria eu pedi desculpas, ele as aceitou e começamos a conversar,
havíamos nos tornado amigos. As outras crianças não conseguiam acreditar que
eu, um garoto magrelo e baixinho, era mais forte do que elas. Todos os dias eu
brigava com alguém diferente, e por incrível que pareça, eu vencia todas. Eu
tinha medo, mas continuava brigando.
“Amigos”
Minha fama foi se espalhando pelo colégio e
com isso várias crianças queriam ser meus amigos, eu sabia que eles só andavam
comigo porque achavam que eu os protegeria, e de fato o fazia. Em um dia
chuvoso todos os meus amigos faltaram, e Fernando veio falar comigo. Nós
estávamos na quadra de esportes quando chegou um garoto e perguntou “Quer
apanhar, Fernando?”, ele apontou para mim e disse “Se você quiser me bater eu
chamo meu amigo Thiago e ele te arrebenta”, eu olhei e pensei, mas que filho
da..., ele está me usando. O garoto disse que também chamaria seu amigo, eu
estava ferrado novamente, mas acabou que não houve nada. Sempre desconfie
quando coisas boas acontecem.
De
volta ao fundo do poço
Eu detestava ter de machucar outras pessoas.
Meu sonho quando criança era ir para um colégio onde ninguém me conhecesse e eu
não precisasse manter nenhuma fama, e qualquer um que tentasse me bater ou me
humilhar eu deixaria, porque não queria ter de viver com medo, não medo da dor,
mas sim medo de ser humilhado e perder meus “amigos”.
Um dia tive uma briga na qual levei uma bela
de uma surra, e isso me fez mudar muito, sentir-se como as pessoas apanhavam me
fez querer vomitar pelo que eu havia me tornado. Desde então eu nunca mais me
envolvi em outra briga, e isso ocorreu na Quarta série.
Novo
irmão, nova casa e um novo papai
Minha mãe começou a sair com vários homens,
um pior que o outro, até que ela engravidou. Deixamos nossa antiga casa e
antigo pai, fomos morar com minha avó e foi lá que meu outro irmão nasceu. Meu
antigo pai vendeu nossa antiga casa e sumiu. Minha mãe começou a sair com um
homem religioso, eles acabaram casando, e foi aí que ganhei meu novo e querido
papai.
Ditadura
a base de surra
O novo papai era um homem decente, ele não
bebia nem fumava, era brincalhão e um homem devoto a Deus. Depois de um tempo
ele começou a se mostrar violento, gritava o tempo todo, e começou a bater em
mim e em meus irmãos.
Ele tinha a sua famosa cinta, da qual era sua
arma principal, em seguida vinha seu chinelo de borracha grossa. Se falou alto
antes das onze leva cintada, derrubou um copo leva cintada, não vai comer leva
cintada, comeu demais leva cintada, questionou leva cintada, se esqueceu da luz
acesa leva cintada e se não parar de chorar leva outra de brinde.
Em uma manhã de domingo Gustavo foi lá em
casa, ele e meu irmão estavam conversando até que a porta se abriu e meu querido
pai apareceu com a cinta na mão e com cara de quem acabou de acordar. Meu irmão
e eu ficamos observando enquanto Gustavo tentava pular o portão levando
cintadas nas pernas, ele murmurava em meio aos soluços “Você não pode me bater,
você não é meu pai, eu vou contar pra minha mãe e ela vai te processar”.
Fernando também não escapou, brincávamos de se empurrar, o doce papai apareceu
com a sua cinta. Pelo menos F. era magrelo e conseguiu pular o portão mais rápido,
mas chorou da mesma maneira. Eu era o que menos apanhava, eu havia aprendido
que você tinha que manter-se em silêncio o tempo todo, porque assim você não é
notado, você meio que deixava de existir e isso era o que eu mais queria.
Policiais
da pesada
O amável papai e minha mãe se divertiram além
da conta e acabei com a notícia de que ganharia uma irmãzinha. Fomos viajar e
foi uma viagem cheia de surras, pescaria e mais surras, além de umas ameaças.
Quando voltamos minha mãe teve o bebê.
Meu papai do coração começou a dar surras com
a fivela da cinta e também a bater em minha mãe, também trouxe seus dois tios
para morar conosco, sendo que um deles fora expulso da sua antiga moradia por
tentar estuprar uma mulher. Havia dias em que não era possível permanecer em
casa, as coisas iam piorando, até que a polícia entrou no meio, e por um tempo
as surras acabaram, mas isso não durou muito, elas voltaram pior do que nunca.
O genuíno homem que era o papai número 2 certa vez foi bater em sua filha,
ainda muito pequenina, minha mãe interveio e as coisas ficaram um pouco fora de
controle e os gentis policiais tiveram que voltar, e vieram já com seus
comentários muito amigáveis como “Aonde é que essas mulheres arrumam marido?”.
E desta vez o abençoado papai teve que ir embora ou seria preso. Vocês tinham
que o ver conversando com os policiais, pareciam amigos de longa data, filhos
da p... sempre se dão bem uns com os outros.
Você
tem esperança? Pois esta será despedaçada!
As coisas estavam indo bem. Até que minha mãe
teve que trabalhar nas férias, e eu tomar conta da minha irmã. Ela era uma
versão mais nova do seu esplêndido pai, cada dia uma imensa tortura, aquela
agonia que parece interminável. Tinha dias tão ruins que eu chorava e soluçava
enquanto orava a Deus pedindo morte,
pois a vida não me servia, e isso, vindo de uma criança é algo extremamente
horrível.
Minha mãe e o divino papai voltaram a se
encontrar e saiam juntos, ele parecia o mesmo homem decente que fingira ser
quando o conheci. As pessoas sempre mostram o melhor de si e tentam imensamente
esconder seus podres, mas, cedo ou tarde todos acabam se revelando, e a verdade
quase nunca é boa.
Fim
Não é o fim! Esta foi minha infância curta e
boa. A partir daqui começa minha adolescência, vou resumi-la em algumas
palavras: tristeza, solidão, angústia, incompreensão, fingimento e perturbação
mental e emocional. Às vezes você precisa chorar todas as lágrimas, para dar
espaço a um coração cheio de risos.
Acho que isso é um adeus. Foi bom estar ao
seu lado nestes minutos, foi curto e doce... como um beijo... um beijo de
despedida.
Adeus.
Eu, Thiago Marques,
autorizo a publicação desta autobiografia.
