sexta-feira, 23 de maio de 2014

Entre os Mundos






No inverno de 1998, em Curitiba, nasceu uma criança prematura e um pouco pequena. Seu nome: Álvaro. Já no começo da minha vida tive problemas. Quando estava sendo gerado, meu pé ficou preso e teve dificuldades de se formar. Como ele não conseguia se mover, ele nasceu com a ponta junto ä canela. Após usar o gesso por um mês, o meu pé se corrigiu e começou a crescer normalmente.
Filho de dois médicos, o meu futuro parecia promissor. Minha mãe sempre cuidou de mim, minha tia era muito carinhosa, eu gostava muito dela, eu não a chamava pelo nome, mas sim de “me”. O meu tio eu não via muito, mas mesmo assim eu gostava dele.
Era essa a minha vida enquanto eu era muito pequeno: simples, mas agradável. Não durou muito: com seis meses meus pais brigaram, e com isso meu pai me jogou na cama e o controle remoto da TV acertou minha cabeça, onde até hoje carrego uma cicatriz. Naquele dia eles se separaram e eu continuei a morar com minha mãe, e a cada 15 dias via meu pai.
Já com dois anos de vida, as lembranças se tornam mais claras. Passava muito tempo trocando de escolas, sempre perto de casa. Nessa ocasião tive meu primeiro bicho de estimação, um cão poodle chamado Cuca, eu gostava muito de brincar com ela, mas infelizmente a roubaram, e eu fiquei muito triste.
Aos poucos fui voltando a ser feliz, mas no dia 21 de maio de 2005 minha vida mudou por completo. Meu pai, que há muito tempo eu não via, pois me tratava mal, foi para a vara da família e conseguiu a minha guarda. Lembro que minha mãe me deixou em uma sala e logo depois meu pai apareceu. Eles me colocaram dentro do carro, eu ainda lembro dos gritos ecoando pelo prédio. Este foi o dia mais triste que eu  tive em minha vida.
Naquele dia o inferno começou. No mesmo dia meu pai me trocou de colégio. Eu chorava todos os dias, um pouco de tristeza, outro de desespero, mas a maior parte era de saudades. Mas não importava o quanto eu chorasse, não tinha resposta.
Quando comecei no outro colégio, na metade do ano letivo, o conteúdo era novo e eu não conseguia acompanhá-lo. As amizades já tinham se formado e fiquei completamente só. O meu pai me matriculou no período integral, então eu ficava o dia inteiro lá. Ele me acordava às 6 da manhã para me levar ao colégio e vinha me buscar 10 da noite, mas as aulas acabavam 6 da tarde, e eu ficava sozinho sem ter o que fazer, só me restava esperar por ele.
Quando eu ficava sozinho com meu pai, ele me ignorava por completo. Algum tempo depois começou a me bater, não sei dizer o porquê, mas ele me batia. A minha mãe, a pessoa que eu mais amava e me confortava na vida, passei anos sem vê-la, pois fazia parte da sentença da juíza que se ela me visse, seria presa.
Após longos quatro anos eu sofri, cheguei a um ponto em que eu não tinha mais motivos para viver, passando dia após dia em um inferno sem fim. Com o passar do tempo os juízes foram trocando até que uma juíza decidiu me ouvir, então ela deixou eu ver minha mãe. Eu mal podia acreditar! No dia 12 de setembro de 2008 foi a audiência em que fui ouvido, foi o dia mais feliz que já vivi porque nesse dia eu voltei a morar com minha mãe.     
Minha vida mudou novamente, para melhor. Ainda me lembro de chegar em casa, ver meu quarto, os meus brinquedos, minha gata, minha família. Enfim, eu estava em casa!
Aos poucos recuperei a vontade de viver, de estudar, de ter novos interesses. Troquei de colégio, fui para um onde os colegas e os professores me tratavam com respeito, fiz um monte de tratamento psicológico por ordem do juiz. As pessoas não entendiam que eu não precisava de psicólogos, mas sim do amor da minha família.
Hoje meu sonho é conseguir ir bem no colégio para fazer faculdade de Direito e um dia me tornar juiz, e não deixar outras crianças passarem o que passei.

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