No
inverno de 1998, em Curitiba, nasceu uma criança prematura e um pouco pequena.
Seu nome: Álvaro. Já no começo da minha vida tive problemas. Quando estava
sendo gerado, meu pé ficou preso e teve dificuldades de se formar. Como ele não
conseguia se mover, ele nasceu com a ponta junto ä canela. Após usar o gesso
por um mês, o meu pé se corrigiu e começou a crescer normalmente.
Filho
de dois médicos, o meu futuro parecia promissor. Minha mãe sempre cuidou de
mim, minha tia era muito carinhosa, eu gostava muito dela, eu não a chamava
pelo nome, mas sim de “me”. O meu tio eu não via muito, mas mesmo assim eu
gostava dele.
Era
essa a minha vida enquanto eu era muito pequeno: simples, mas agradável. Não
durou muito: com seis meses meus pais brigaram, e com isso meu pai me jogou na
cama e o controle remoto da TV acertou minha cabeça, onde até hoje carrego uma
cicatriz. Naquele dia eles se separaram e eu continuei a morar com minha mãe, e
a cada 15 dias via meu pai.
Já
com dois anos de vida, as lembranças se tornam mais claras. Passava muito tempo
trocando de escolas, sempre perto de casa. Nessa ocasião tive meu primeiro
bicho de estimação, um cão poodle chamado Cuca, eu gostava muito de brincar com
ela, mas infelizmente a roubaram, e eu fiquei muito triste.
Aos
poucos fui voltando a ser feliz, mas no dia 21 de maio de 2005 minha vida mudou
por completo. Meu pai, que há muito tempo eu não via, pois me tratava mal, foi
para a vara da família e conseguiu a minha guarda. Lembro que minha mãe me
deixou em uma sala e logo depois meu pai apareceu. Eles me colocaram dentro do
carro, eu ainda lembro dos gritos ecoando pelo prédio. Este foi o dia mais
triste que eu tive em minha vida.
Naquele
dia o inferno começou. No mesmo dia meu pai me trocou de colégio. Eu chorava
todos os dias, um pouco de tristeza, outro de desespero, mas a maior parte era
de saudades. Mas não importava o quanto eu chorasse, não tinha resposta.
Quando
comecei no outro colégio, na metade do ano letivo, o conteúdo era novo e eu não
conseguia acompanhá-lo. As amizades já tinham se formado e fiquei completamente
só. O meu pai me matriculou no período integral, então eu ficava o dia inteiro
lá. Ele me acordava às 6 da manhã para me levar ao colégio e vinha me buscar 10
da noite, mas as aulas acabavam 6 da tarde, e eu ficava sozinho sem ter o que
fazer, só me restava esperar por ele.
Quando
eu ficava sozinho com meu pai, ele me ignorava por completo. Algum tempo depois
começou a me bater, não sei dizer o porquê, mas ele me batia. A minha mãe, a
pessoa que eu mais amava e me confortava na vida, passei anos sem vê-la, pois
fazia parte da sentença da juíza que se ela me visse, seria presa.
Após
longos quatro anos eu sofri, cheguei a um ponto em que eu não tinha mais
motivos para viver, passando dia após dia em um inferno sem fim. Com o passar
do tempo os juízes foram trocando até que uma juíza decidiu me ouvir, então ela
deixou eu ver minha mãe. Eu mal podia acreditar! No dia 12 de setembro de 2008 foi
a audiência em que fui ouvido, foi o dia mais feliz que já vivi porque nesse
dia eu voltei a morar com minha mãe.
Minha
vida mudou novamente, para melhor. Ainda me lembro de chegar em casa, ver meu
quarto, os meus brinquedos, minha gata, minha família. Enfim, eu estava em
casa!
Aos
poucos recuperei a vontade de viver, de estudar, de ter novos interesses.
Troquei de colégio, fui para um onde os colegas e os professores me tratavam
com respeito, fiz um monte de tratamento psicológico por ordem do juiz. As
pessoas não entendiam que eu não precisava de psicólogos, mas sim do amor da
minha família.
Hoje
meu sonho é conseguir ir bem no colégio para fazer faculdade de Direito e um
dia me tornar juiz, e não deixar outras crianças passarem o que passei.

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