terça-feira, 4 de novembro de 2014

Minha Vida






Na minha vida nada foi fácil. Desde criança eu trabalhei. Fui criado pela minha avó, mãe, tio, tias. Aprendi a fazer de tudo, desde cuidar de uma casa, cuidar de criança e pegar no pesado na oficina do meu avô, que não morava com minha avó. Até os 10 anos eu ficava um ano com minha família e outro ano com a família do meu avô. E na verdade minha família é muito grande e eu gostava muito, porque quando era final de semana nós fazíamos a maior festa, mas como em qualquer família grande também tinha muita briga. Com o tempo nasceram os filhos das minhas tias e assim minha família foi crescendo.
Em 2002 começou a desgraça na nossa família. Na época não tinha muito serviço. Minhas tias foram dar um jeito para arrumar serviço para nos sustentar, e só tinha um jeito de conseguir dinheiro para pagar as contas. Elas começaram a mexer com drogas. Não usavam, mas vendiam. E assim minha tia faleceu. Como eu tinha uns amigos da pesada, eu vinguei minha tia. Isso era só o começo. Depois de alguns anos a minha vó se entregou à doença, até nos deixar.
Tive que largar meus estudos porque o diretor do colégio queria que eu passasse droga para ele. Eu falei “não”. Como eu sabia brigar bem, graças a Deus, ele mandava os piás que não gostavam de mim tentar me bater. Por causa dele até meus amigos vinham querer me bater.
Nessa época tive que fazer uma coisa que não gostei. Eles viram que não conseguiam me bater e foram mexer com meus sobrinhos. Foi o pior erro deles. Acabei eu, outro dia, com um amigo nas ruas por 24 horas bebendo muito e fomos até o colégio acabar com aquilo. Entramos armados para pegar o diretor do colégio, quando vi ele conversando com o menino que bateu no meu sobrinho. Fiquei doido, puxamos as armas, e comecei a atirar neles. Acertei dois tiros em cada um, mas eles não morreram. Fiquei no colégio até a polícia chegar. Não fui preso por causa da minha mãe, que já tinha dado queixa deles, e também por meu padrinho. Ele e minhas tias me propuseram uma coisa, ir para o exército ou São Paulo.
Escolhi ir para o exército, porque acreditava que se eu matasse, não seria preso. Mas minha cabeça mudou muito lá. No começo sofri, porque eles sabiam o que eu tinha feito lá fora, mas eles tinham tudo o que eu gostava: adrenalina. E eles mandavam fazer alguma coisa que os outros demoravam, e eu fazia em menos tempo, até que conversei com um sargento e ele falou: “Você é um cara que tem jeito para o exército. Quem te ensinou a fazer tudo isso?”. E eu respondi: “Minha família”. Então fui convidado para fazer cursos militares e passei.
Um dia o sargento me mandou passar uma semana com minha família, mas quando cheguei lá não gostei do que vi, e descobri que minha mãe estava muito doente, com câncer. Então pedi para sair do exército, por mais que eles não quisessem me deixar. Comecei a trabalhar à noite e agora cuido da minha família, e da minha mãe.  

domingo, 2 de novembro de 2014

A dor de não poder chamar meu pai de pai




A minha vida foi sofrida, minha mãe nunca casou com meu pai, não sei se ela sabia que ele era casado, mas teve três filhos. Na época as condições do meu pai eram boas, ele sustentava as duas famílias sem que a mulher dele soubesse – e não sabe até hoje.
Eu sou o caçula. Quando minha mãe foi na farmácia para secar os seios, para parar de me dar leite, e o farmacêutico falou que não tinha o que ela queria, mas tinha um parecido, e ela aceitou. Isso fez uma mal! Na época ela ficou internada, minha madrinha cuidava de nós, e até hoje minha mãe toma remédio controlado – ela tem transtorno bipolar.
Aos meus 3 anos de idade, meu pai ficou desempregado. Tivemos que mudar de apartamento para casa de aluguel. Tínhamos tudo dentro de casa, tudo do melhor, e foi decaindo. Mudamos três vezes de casa até morar em uma de duas peças. Nisso eu já estava com 8 anos, meu pai não tinha condições de pagar aluguel. Ficamos dois anos sem luz, três anos sem água encanada. A dona da casa, não sei como nos aguentou. Tínhamos tudo para ficar vagabundos. Nessa época minha mãe não fazia tratamento, era um inferno: mãe doente, passando necessidade, meu pai não morava conosco. Quantas vezes eu ia pedir comida nas casas, padaria. Pela influência de amigos, roubava. Fui preso aos 12 anos, foi a coisa mais vergonhosa na minha vida.
Uma professora que me dava aula morava na minha rua. O nome dela é Gislaine, ela foi uma segunda mãe. Mesmo com tudo isso ela acreditou em mim, me incentivava, me dava serviço na casa dela, tentava me ocupar. Nunca abandonei os estudos, terminei o segundo grau.
Hoje temos terreno próprio, que eu e meu irmão compramos. Ele é casado e mora na frente, e eu e minha mãe moramos nos fundos.
 O que me dói a garganta, me dá agonia é ir na casa do meu pai. Ele não teve coragem de falar para a mulher dele sobre nós. Faz 27 anos que ele esconde.
Eu não tiro da minha cabeça que se for para ele morrer, que seja no fim de semana, para que eu possa vê-lo. Sou muito sozinho. Tirando essa dor no coração eu estou bem, tenho que focar no meu trabalho, na minha vida.