Na
minha vida nada foi fácil. Desde criança eu trabalhei. Fui criado pela minha
avó, mãe, tio, tias. Aprendi a fazer de tudo, desde cuidar de uma casa, cuidar
de criança e pegar no pesado na oficina do meu avô, que não morava com minha
avó. Até os 10 anos eu ficava um ano com minha família e outro ano com a
família do meu avô. E na verdade minha família é muito grande e eu gostava
muito, porque quando era final de semana nós fazíamos a maior festa, mas como
em qualquer família grande também tinha muita briga. Com o tempo nasceram os
filhos das minhas tias e assim minha família foi crescendo.
Em
2002 começou a desgraça na nossa família. Na época não tinha muito serviço.
Minhas tias foram dar um jeito para arrumar serviço para nos sustentar, e só
tinha um jeito de conseguir dinheiro para pagar as contas. Elas começaram a
mexer com drogas. Não usavam, mas vendiam. E assim minha tia faleceu. Como eu
tinha uns amigos da pesada, eu vinguei minha tia. Isso era só o começo. Depois
de alguns anos a minha vó se entregou à doença, até nos deixar.
Tive
que largar meus estudos porque o diretor do colégio queria que eu passasse
droga para ele. Eu falei “não”. Como eu sabia brigar bem, graças a Deus, ele
mandava os piás que não gostavam de mim tentar me bater. Por causa dele até
meus amigos vinham querer me bater.
Nessa
época tive que fazer uma coisa que não gostei. Eles viram que não conseguiam me
bater e foram mexer com meus sobrinhos. Foi o pior erro deles. Acabei eu, outro
dia, com um amigo nas ruas por 24 horas bebendo muito e fomos até o colégio
acabar com aquilo. Entramos armados para pegar o diretor do colégio, quando vi
ele conversando com o menino que bateu no meu sobrinho. Fiquei doido, puxamos
as armas, e comecei a atirar neles. Acertei dois tiros em cada um, mas eles não
morreram. Fiquei no colégio até a polícia chegar. Não fui preso por causa da
minha mãe, que já tinha dado queixa deles, e também por meu padrinho. Ele e
minhas tias me propuseram uma coisa, ir para o exército ou São Paulo.
Escolhi
ir para o exército, porque acreditava que se eu matasse, não seria preso. Mas
minha cabeça mudou muito lá. No começo sofri, porque eles sabiam o que eu tinha
feito lá fora, mas eles tinham tudo o que eu gostava: adrenalina. E eles
mandavam fazer alguma coisa que os outros demoravam, e eu fazia em menos tempo,
até que conversei com um sargento e ele falou: “Você é um cara que tem jeito
para o exército. Quem te ensinou a fazer tudo isso?”. E eu respondi: “Minha
família”. Então fui convidado para fazer cursos militares e passei.
Um
dia o sargento me mandou passar uma semana com minha família, mas quando
cheguei lá não gostei do que vi, e descobri que minha mãe estava muito doente,
com câncer. Então pedi para sair do exército, por mais que eles não quisessem
me deixar. Comecei a trabalhar à noite e agora cuido da minha família, e da
minha mãe.

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