domingo, 2 de novembro de 2014

A dor de não poder chamar meu pai de pai




A minha vida foi sofrida, minha mãe nunca casou com meu pai, não sei se ela sabia que ele era casado, mas teve três filhos. Na época as condições do meu pai eram boas, ele sustentava as duas famílias sem que a mulher dele soubesse – e não sabe até hoje.
Eu sou o caçula. Quando minha mãe foi na farmácia para secar os seios, para parar de me dar leite, e o farmacêutico falou que não tinha o que ela queria, mas tinha um parecido, e ela aceitou. Isso fez uma mal! Na época ela ficou internada, minha madrinha cuidava de nós, e até hoje minha mãe toma remédio controlado – ela tem transtorno bipolar.
Aos meus 3 anos de idade, meu pai ficou desempregado. Tivemos que mudar de apartamento para casa de aluguel. Tínhamos tudo dentro de casa, tudo do melhor, e foi decaindo. Mudamos três vezes de casa até morar em uma de duas peças. Nisso eu já estava com 8 anos, meu pai não tinha condições de pagar aluguel. Ficamos dois anos sem luz, três anos sem água encanada. A dona da casa, não sei como nos aguentou. Tínhamos tudo para ficar vagabundos. Nessa época minha mãe não fazia tratamento, era um inferno: mãe doente, passando necessidade, meu pai não morava conosco. Quantas vezes eu ia pedir comida nas casas, padaria. Pela influência de amigos, roubava. Fui preso aos 12 anos, foi a coisa mais vergonhosa na minha vida.
Uma professora que me dava aula morava na minha rua. O nome dela é Gislaine, ela foi uma segunda mãe. Mesmo com tudo isso ela acreditou em mim, me incentivava, me dava serviço na casa dela, tentava me ocupar. Nunca abandonei os estudos, terminei o segundo grau.
Hoje temos terreno próprio, que eu e meu irmão compramos. Ele é casado e mora na frente, e eu e minha mãe moramos nos fundos.
 O que me dói a garganta, me dá agonia é ir na casa do meu pai. Ele não teve coragem de falar para a mulher dele sobre nós. Faz 27 anos que ele esconde.
Eu não tiro da minha cabeça que se for para ele morrer, que seja no fim de semana, para que eu possa vê-lo. Sou muito sozinho. Tirando essa dor no coração eu estou bem, tenho que focar no meu trabalho, na minha vida.

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